Alberte Pagán

APONTAMENTOS SOBRE CINEMA GALEGO

APONTAMENTOS SOBRE

CINEMA GALEGO

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O sabor da pera

Alberte Pagán

[publicado 02-03-17]

Achego-me a Pear Tree (John Woodman, 1980, 18’) atraído polas images da película e pola sinopse: jardim da vivenda do cineasta, pereira ao fundo, rodage ao longo do tempo (quatro anos), temporalidade condensada, câmbios nas estaçons (a caída da folha permite ver as vivendas trás as árvores), na luz e nas cores (planos duns poucos segundo rodados umha vez por semana a diferentes horas do dia)… Demasiadas coincidências. Poderia estar a falar da minha Eclipse (2010, 20’).

Pear Tree

Gravei Eclipse ao longo dum ano, filmando semanalmente um ou dous minutos, a diferentes horas do dia, que logo comprimiria na montage. O resultado som planos, como os de Woodman, duns poucos segundos de duraçom que recolhem os câmbios ao longo do dia e estacionais. Quando a folha cai vemos as vivendas que se agochavam trás as árvores: de aí o título da peça.

Mas Eclipse nacera como parte de Eclipse metanoico (2009), um encargo da Mostra de Curtas de Noia que se projectou no teatro Noela com Andrés Castro e Pablo Sax tocando em directo desde detrás da pantalha. A metade da metrage de Eclipse está em Eclipse metanoico. Filmara a pereira do meu jardim durante meio ano e após a estrea de Eclipse metanoico (na que aparecia um verdadeiro eclipse de sol) decidim continuar documentando a árvore até completar um ciclo anual.

As similitudes entre Pear Tree e Eclipse som abundantes: mesmo as duraçons dos planos e da peça inteira vam parelhas. Centremo-nos portanto nas diferenças.

O paisagista britânico respeita umha temporalidade “real” (a duraçom na rodage corresponde-se coa duraçom na projecçom), ainda que, obviamente, a temporalidade final (18 minutos) é umha condensaçom de quatro anos de rodage. No caso de Eclipse essa condensaçom dá-se ao interior de cada plano: o tempo de rodage foi moi superior ao de projecçom.

Woodman mantém a câmara fixa e nom intervém nesta filmaçom frontal e neutra. Eclipse, pola contra, ainda que está filmada mormente desde um ponto de vista fixo e co mesmo enquadre, permite achegamentos a detalhes da pereira e do jardim e, ao final, deixa que a câmara saia voando pola janela para, após percorrer o jardim e os seus habitantes, reentrar na vivenda e situar-se de novo ante a fiestra (bucle físico que imita o percurso anual da terra). Tamém permite a convivência de diferentes temporalidades, de jeito que umha pereira viçosa deixa assomar o seu esqueleto espido e invernal por meio dumha superposiçom. Mas o traço mais salientável de Eclipse quiçá seja essa sinfonia barroca de cores e luzes que recolhe a câmara: nom há manipulaçom digital: todos os efectos som produzidos analogicamente polo mecanismo da câmara.

Eclipse

Pear Tree recolhe casuais intervençons humanas, gente que passa baixo a pereira, dum jeito documental. Eclipse inclui umha ficçom. Entanto o tempo passa, a vida flue e a natureza completa um ciclo inteiro de vida e morte, Eva e Adám reinterpretam e corrigem o mito da árvore da ciência: a fruta proibida fai-nos sábios. A voz de James Joyce lendo o capítulo oitavo de Finnegans Wake (“Anna Livia Prurabelle”) remite-nos à história cíclica de Giambattista Vico.

E esta é outra grande divergência com respeito à peça de Woodman: Pear Tree, conseqüente coa câmara nom intervencionista da película (posiçom fixa, respeito pola temporalidade interna de cada plano), é muda. Os interesses estéticos de Woodman estám jalundes: nas mutaçons da paisage através do tempo, dos dias, das estaçons.

Eclipse, pola contra, é barroca visual e sonoramente. A sua banda sonora, composta a partir do trevom que podemos visualizar ao final da película (a voz do trevom de Finnegans Wake), contradize a minha deriva anterior. Sempre rejeitei a música decorativa, a música como potenciadora da image, como redundante sublinhado; mas a experiência de ver Eclipse metanoico baixo umha partitura criada especialmente para ela, e tempo despois baixo as improvisaçons em directo de Urro, suscitou em mim um interesse pola contraposiçom dialéctica entre image e música que desembocaria na operística A Pedra do Lobo (2010), na que mesmo reutilizo algum plano de Eclipse, e que nom volveria repetir até o musical Konfrontationen 2014 (2015).

E entrementres a pereira de Pear Tree agroma e perde a folha repetidamente em silêncio. Polos seus frutos os conheceredes.

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