Alberte Pagán

JAMES JOYCE
Contos contados de Finnegan e H.C.E. (Finnegans Wake I.i-ii)

Gerard Manley Hopkins


selecçom e traduçom de Alberte Pagán

(em Anuario Barbantia nº 4, 2008, pp. 181-191)

The Habit of Perfection

Elected Silence, sing to me
And beat upon my whorlèd ear,
Pipe me to pastures still and be
The music that I care to hear.

Shape nothing, lips; be lovely-dumb:
It is the shut, the curfew sent
From there where all surrenders come
Which only makes you eloquent.

Be shellèd, eyes, with double dark
And find the uncreated light:
This ruck and reel which you remark
Coils, keeps, and teases simple sight.

Palate, the hutch of tasty lust,
Desire not to be rinsed with wine:
The can must be so sweet, the crust
So fresh that come in fasts divine!

Nostrils, your careless breath that spend
Upon the stir and keep of pride,
What relish shall the censers send
Along the sanctuary side!

O feel-of-primrose hands, O feet
That want the yield of plushy sward,
But you shall walk the golden street
And you unhouse and house the Lord.

And, Poverty, be thou the bride
And now the marriage feast begun,
And lily-coloured clothes provide
Your spouse not laboured-at nor spun.




O hábito da perfecçom

Silêncio eleito, canta-me
e bate-me no ouvido de buguina,
leva-me a plácidos pastos e sê
a música que eu gosto de escoitar.

Nada debuxedes, lábios; emudecede:
é o postigo, o toque de queda
procedente de onde naz toda derrota
o único que vos fai eloquentes.

Cobride-vos, olhos, com dobres trevas
e assi atoparedes a incriada luz:
esta massa cinética que observades
enreda, guarda, engana a visom simples.

Padal, tobeira de gostosas apetências,
nom cobices o vinho p’ra enxaguar-te:
a jarra é tam doce, a códea tam fresca,
quando acompanham divinos jejuns!

Nariz, teu negligente alento
malgastado no estímulo do orgulho,
que aroma emitirám os incensários
na beira do santuário!

Ó maos tacto de prímula, Ó pés
que ansiam sentir a donda relva,
haveis de andar a rua dourada
e o Senhor desacolher e acolher.

E, Pobreza, sê tu a noiva
e que empece o banquete de bodas,
e floreadas roupas nom tecidas
nem trabalhadas procura ao teu esposo.




The Sea and the Skylark

ON ear and ear two noises too old to end
Trench—right, the tide that ramps against the shore;
With a flood or a fall, low lull-off or all roar,
Frequenting there while moon shall wear and wend.

Left hand, off land, I hear the lark ascend,
His rash-fresh re-winded new-skeinèd score
In crisps of curl off wild winch whirl, and pour
And pelt music, till none ’s to spill nor spend.

How these two shame this shallow and frail town!
How ring right out our sordid turbid time,
Being pure! We, life’s pride and cared-for crown,

Have lost that cheer and charm of earth’s past prime:
Our make and making break, are breaking, down
To man’s last dust, drain fast towards man’s first slime.




O mar e a cotovia

Num e outro ouvido dous anciaos sons imorrentes.
À direita, a maré que contra a costa rompe;
em retirada ou chea, arrolando ou bradando,
frequentando-a entanto a lua devala e se retira.

À esquerda ouço, no mar, a cotovia izar-se;
a fogosa e sinuosa partitura que traza
arremoinha-se em volutas dum torno silvestre
e derrama e desbalde música até esgotá-la.

Como humilham a nossa frágil e fútil vila!
Como clamam contra esta vil e turva época
coa sua pureza! Nós, orgulho da vida e prezada coroa,

perdimos a alegria e o encanto primitivos:
o nosso ser e os nossos feitos esfarelam-se
convertendo-se em pó, no barro original.




The Caged Skylark

AS a dare-gale skylark scanted in a dull cage
Man’s mounting spirit in his bone-house, mean house, dwells—
That bird beyond the remembering his free fells;
This in drudgery, day-labouring-out life’s age.

Though aloft on turf or perch or poor low stage,
Both sing sometímes the sweetest, sweetest spells,
Yet both droop deadly sómetimes in their cells
Or wring their barriers in bursts of fear or rage.

Not that the sweet-fowl, song-fowl, needs no rest—
Why, hear him, hear him babble and drop down to his nest,
But his own nest, wild nest, no prison.

Man’s spirit will be flesh-bound when found at best,
But uncumbered: meadow-down is not distressed
For a rainbow footing it nor he for his bónes rísen.




A cotovia enjaulada

Como audaz cotovia minguada em medíocre gaiola
o elevado espírito do home habita nos seus ossos, vulgar casa.
Aquela já nom lembra os seus altos páramos;
este estraga a vida em trabalhosos jornais.

Ainda que pousados na erva ou no poleiro ou no insignificante estrado,
ambos cantam às vezes o mais doce dos engados,
mas ambos esmorecen às vezes nas suas celas
ou se aferram aos barrotes em ataques de pánico ou carrage.

Nom é que a doce ave, o páxaro canoro, nom precise acovilho:
escoitade como gagueja quando se anica no ninho,
mas no seu próprio ninho, montês ninho, nom prisom.

O espírito do home, no seu melhor momento, confina-se na carne,
mas é quem de superá-la: o arco-íris nom altera as veigas
quando nelas se pousa, nem os ossos turbam o home.




In the Valley of the Elwy

I REMEMBER a house where all were good
To me, God knows, deserving no such thing:
Comforting smell breathed at very entering,
Fetched fresh, as I suppose, off some sweet wood.

That cordial air made those kind people a hood
All over, as a bevy of eggs the mothering wing
Will, or mild nights the new morsels of spring:
Why, it seemed of course; seemed of right it should.

Lovely the woods, waters, meadows, combes, vales,
All the air things wear that build this world of Wales;
Only the inmate does not correspond:

God, lover of souls, swaying considerate scales,
Complete thy creature dear O where it fails,
Being mighty a master, being a father and fond.




No vale do Elwy

Lembro umha casa na que todos eram bons
comigo, indigno, Deus o sabe, de tal cousa:
confortante recendo aspirei tam pronto entrei,
recém tirado, imagino, de fragrante madeira.

Era este ar cordial um capelo que cobria
a amável gente, como a asa materna umha ninhada,
ou a incipiente primavera as suaves noites:
semelhava natural; deveria semelhar justo.

Belos bosques, águas, prados, canhadas, vales,
o ar que envolve todo o que conforma Gales;
só o inquilino desmerece:

Deus, que amas as almas, equilibra a balança,
completa a criatura querida onde fracassa,
tu que todo o podes, tu amante padre.




Binsey Poplars

felled 1879

My aspens dear, whose airy cages quelled,
Quelled or quenched in leaves the leaping sun,
All felled, felled, are all felled;
Of a fresh and following folded rank
Not spared, not one
That dandled a sandalled
Shadow that swam or sank
On meadow and river and wind-wandering weed-winding bank.

O if we but knew what we do
When we delve or hew—
Hack and rack the growing green!
Since country is so tender
To touch, her being só slender,
That, like this sleek and seeing ball
But a prick will make no eye at all,
Where we, even where we mean
To mend her we end her,
When we hew or delve:
After-comers cannot guess the beauty been.
Ten or twelve, only ten or twelve
Strokes of havoc únselve
The sweet especial scene,
Rural scene, a rural scene,
Sweet especial rural scene.




Os álamos de Binsey

talados 1879

Meus choupos queridos, cujas etéreas gaiolas mitigavam,
mitigavam ou nas folhas matavam o brincadeiro sol,
talados todos som, todos talados;
dumha fresca e fechada fileira
nem um foi dispensado, nengum
dos que arrolavam a sombra
em sandálias que nadava ou se afundia
no lameiro e no rio e na beira onde o vento vaga e as ervas se peiteam.

Ó se tam só soubéssemos o que fazemos
quando escavamos ou arrincamos,
cortamos e extenuamos a vegetaçom!
Porque o campo é tam tenro
ao tacto, o seu ser tam esvelto,
que, como este pulcro globo ocular
deixa de haver olho cum simples punçar,
mesmo quando arranjá-lo queremos
com el acabamos,
ao arrincar ou escavar:
os que venham despois nom poderám adivinhar a beleza passada.
Dez ou doze, só dez ou doze
golpes de destruçom estragam
a doce e especial paisage,
paisage rural, rural paisage,
doce e especial paisage rural.



The Handsome Heart

at a Gracious Answer

‘BUT tell me, child, your choice; what shall I buy
You?’—‘Father, what you buy me I like best.’
With the sweetest air that said, still plied and pressed,
He swung to his first poised purport of reply.

What the heart is! which, like carriers let fly—
Doff darkness, homing nature knows the rest—
To its own fine function, wild and self-instressed,
Falls light as ten years long taught how to and why.

Mannerly-hearted! more than handsome face—
Beauty’s bearing or muse of mounting vein,
All, in this case, bathed in high hallowing grace…

Of heaven what boon to buy you, boy, or gain
Not granted?—Only … O on that path you pace
Run all your race, O brace sterner that strain!




O nobre coraçom

ante umha elegante resposta

“Mas di-me, filho, a tua escolha; que queres que che
merque?” —“Padre, o que me merque será o que eu prefira.”
Dito coa voz mais melodiosa, a alquitara termada com círcio,
aproveita com apromo a primeira ocasiom de dar resposta.

O que é o coraçom! que, como pomba mensageira
(ignorando a escuridade, cara à casa a natureza a guia),
cumpre a sua nobre missom, natural e inata,
como se anos levasse estudando as maneiras e as causas.

Galante coraçom! formosíssima faciana
com o porte da Beleza, musa estimulante,
todo, neste caso, engraçado cum halo de santidade…

Que prebendas mercar-che do céu, neno, que bens
que já nom tenhas? —Só… Ó no vieiro que percorres
corre toda a carreira, Ó tenso cabo que compele!



Andromeda

NOW Time’s Andromeda on this rock rude,
With not her either beauty’s equal or
Her injury’s, looks off by both horns of shore,
Her flower, her piece of being, doomed dragon’s food.

Time past she has been attempted and pursued
By many blows and banes; but now hears roar
A wilder beast from West than all were, more
Rife in her wrongs, more lawless, and more lewd.

Her Perseus linger and leave her tó her extremes?—
Pillowy air he treads a time and hangs
His thoughts on her, forsaken that she seems,

All while her patience, morselled into pangs,
Mounts; then to alight disarming, no one dreams,
With Gorgon’s gear and barebill, thongs and fangs.




Andrómeda

Agora Andrómeda, nesta bruta rocha,
sem igual na beleza e mais no agrávio,
vigia a um lado e outro da ribeira;
a sua flor, a sua existência, som carne de dragom.

No passado muitos golpes e desgraças
a perseguírom; mas agora é o bramido
dumha besta mais fera do Poente
o que escoita, mais malévola e lasciva.

O seu Perseo demora e a deixa no seu transe?
Caminha sobre ar almofadado e só pensa
nela, por muito que semelhe abandonada,

entanto ajunta ela, entre tormentos,
paciência; e desce vencedor, ninguém o sonha,
co bico e os vergalhos e os colmilhos da Gorgona.

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